NAS REDES SOCIAIS NÃO EXISTEM ESPECTADORES
Como tudo mundo (ou quase) já sabe, ontem os anti-corinthianos perderam uma dos principais argumentos para chacotear os que torcem pelo alvinegro paulista. Não, eu não sou torcedor do “Curítcha”, mas, se pararmos pra pensar, a nação corinthiana tem muito em comum com a nação digital no que diz respeito a comportamento.
Quando ouvimos alguém gritando “Vai, CORINTHIANS!”, mesmo depois de terem ganho o título (?), estamos diante de uma pessoa que, mesmo sem nunca ter jogado profissionalmente, não conhecer pessoalmente nenhum jogador, não ter qualquer envolvimento direto com o dia a dia interno do clube, se sente responsável pela conquista. Por mais que você argumente que a vida dela não vai mudar com a vitória sobre o Boca Juniors, ela não perde a chance de esfregar a conquista na cara de todo mundo como se fosse dela.
Pode até não parecer, mas, se você reparar, existe muita gente com “síndrome de curítcha” espalhada pelas mídias sociais. E isso faz parte da nossa natureza. O sentimento de poder fazer a nossa parte para alcançar um objetivo coletivo. Um caso que teve muita repercussão e ilustra bem esse comportamento foi o pitbull Zeca, levado por assaltantes durante um arrastão a um prédio de classe média em São Paulo. Sem saber o que fazer para reaver o cão, seu dono iniciou uma pequena campanha no Facebook, contando com a colaboração dos amigos e parentes. Em pouco tempo a campanha ganhou a internet. Zeca virou o animal mais procurado do mundo, pessoas de todos os lugares do país cobravam atitudes das autoridades, ONGs manifestaram sua solidariedade ao dono do animal e a comoção foi geral. Tanto que, poucos dias depois, a polícia encontrou Zeca numa favela da cidade, porém, não teve a mesma sorte com os suspeitos.
Por que será que as pessoas se empenham tanto a respeito de um assunto tão avulso às suas vida? Quer dizer, quem tem ou teve cachorro sabe o quanto é doloroso pensar que o bichinho pode sumir de uma hora pra outra. Mas um cachorro sumido ter poder para mobilizar um país nos mostra claramente o desejo que as pessoas têm de fazer parte de algo significativo. Com certeza a maioria dessas pessoa se vangloriou de ter ajudado a resolver o caso, mesmo sem participado da investigação, sem doar dinheiro para a impressão de cartazes de PROCURA-SE ou nem sequer ter escrito alguma mensagem de revolta ao retwitar ou compartilhar a campanha. Da mesma forma, cada torcedor que comprou uma camisa por ” 10 real “no camelô do semáforo se sente um pouco responsável pela glória do seu time. Os méritos também são deles.
É isso que as empresas precisam enxergar na hora de se relacionar nas mídias sociais. O público precisa de causas para defender, de propósitos para compartilhar, de objetivos para curtir. Simplesmente falar que o seu sabão lava mais branco não vai levar sua marca a lugar nenhum. O negócio é mostrar como lavar mais branco pode ajudar a melhorar a vida das pessoas. Melhor ainda se uma das etapas do projeto foi o envolvimento “emocional” da comunidade virtual. Tudo na vida digital fica mais acentuado, inclusive o sentimento de solidariedade.
Como já dissemos aqui antes, estamos vivendo uma época em que o ser é mais importante do que o ter e o saber. E as mídias sociais são nossas vitrines. As causas nos ajudam a melhorar o produto que queremos ser. Nós somos aquilo que compartilhamos. Até mesmo a vitória de um campeonato de futebol.